A IMPORTÂNCIA DO BAQUE MULHER PARA O EMPODERAMENTO FEMININO

 Por Isabela Carral, batuqueira do Baque Mulher RJ e do Baques do Pina.

Revisado por Mestra Joana Cavalcante, Tenily Guian e Soraia Melo.

   No dia 8 de março de 2017, o Baque Mulher RJ completa 1 ano como parte de uma história que começou em 2008 com a Mestra Joana Cavalcante e outras mulheres da comunidade do Bode, no bairro do Pina, em Recife – Pernambuco, das Nações de Maracatu Porto Rico e Encanto do Pina.

   Há um pouco mais de um ano, graças a uma dessas mulheres do Pina, Tenily Guian, e outras mulheres de outros cantos do Brasil que estavam no Rio de Janeiro, integrantes do grupo Baques do Pina, que estuda no Rio de Janeiro as nações Porto Rico e Encanto do Pina, fui convidada para um único ensaio para tocar no ato das mulheres do dia 8 de março de 2016.

   Foi um cortejo curto e pequeno, mas muito forte. Tivemos o apoio de alguns amigos batuqueiros. Encontramos outro cortejo de mulheres de grupos de maracatu do Rio de Janeiro. Nos juntamos ao ato. Ouvimos as demandas das mulheres que ali estavam. Quem teve o privilégio de estar nesse dia pôde perceber que algo de muito grande começava. Eu, que havia caído de paraquedas, conhecia o maracatu de baque virado, Tenily e Mestra Joana há poucos meses, ainda não sabia o tanto de luta e conquista que essas mulheres já carregavam.

   Ao longo desse ano, pude conhecer muitas das integrantes dos outros Estados, principalmente de Pernambuco e São Paulo. Pude perceber como nossas lutas eram as mesmas, mas as batalhas tão diferentes. Pude começar a adentrar uma rede de união e apoio mútuo que se construía e já trazia muitos frutos. No Festival Internacional da Utopia, em Maricá, pude ouvir detalhadamente a história das meninas do Pina, contadas por elas próprias, algumas saídas de Recife pela primeira vez. No encontro nacional do Baque Mulher, em Sorocaba, pude conhecer batuqueiras de todos os Estados, ouvir suas histórias, contar as minhas, entender um pouco mais das opressões que viviam e aprender com elas. Pude assistir ao filme “Mães do Pina” e descobrir as histórias incríveis de mulheres que quase ninguém de fora ouviu falar, porque sempre foram silenciadas mas lutaram muito para se fazer ouvir.

   Aprender que até muito pouco tempo atrás, a mulher não podia tocar nas nações de maracatu, apenas dançar. Aprender a importância do agbê nessa transição, instrumento que permitiu a entrada de mulheres nos baques. A importância da luta da Mestra Joana para conseguir seu título junto ao Encanto do Pina, primeira nação mista de Recife a permitir que as mulheres usassem saias em qualquer instrumento, e fundar o Baque Mulher, um grupo de maracatu de baque virado onde apenas as mulheres podem tocar, e os homens ocupam os lugares de apoio. Onde muitas meninas puderam tocar tambor pela primeira vez, mas não apenas isso. Puderam falar. Puderam ser ouvidas, ajudadas, acolhidas. Puderam se fortalecer para enfrentar opressões mais antigas do que elas.

   O apoio de Mestre Chacon, conquistado pela Mestra, que a ajuda a abrir os espaços para as mulheres em uma das Nações de Maracatu mais tradicionais de Recife, o Porto Rico. O intermédio com os batuqueiros homens, na tentativa de mostrar que todos devemos ter nosso espaço no maracatu e na vida, independente do gênero. O auxílio na hora de denunciar uma agressão, uma violência. Um abrigo em um momento de necessidade. O enxoval de um filho inesperado.

   Enquanto isso, o grupo do Rio de Janeiro aumentava cada vez mais. Apesar da articulação inicial ter surgido por articulação de integrantes do Baques do Pina, rapidamente o Baque Mulher RJ virou um grupo independente, sob a regência de Tenily. Apesar de ser um dos mais recentes, rapidamente cresceu, tomando suas próprias características e lutas. Por ter muitas mulheres lésbicas e bissexuais, isso rapidamente (em menos de um ano!) virou mais um estigma, além do fato de ser um grupo onde os homens não poderiam ter o protagonismo. Não nos preocupamos em nos defender ou nos explicar, porque sabemos que a orientação sexual, o posicionamento político e outras características individuais não são defeitos, não nos depreciam e não nos impediram de fazer tudo que fizemos nesse ano, mulheres héteros, bissexuais, lésbicas, cis, trans… todas procuramos nos unir, não apenas em nossos núcleos e em torno de nossas opressões específicas, mas buscando cada vez mais integração com outras mulheres e suas realidades. Quem tem interesse, chega e soma. A gente não vai te pedir para preencher uma ficha informando sua orientação sexual, mas como temos meninas de todas as sexualidades no grupo e acreditamos no respeito a todas as mulheres, exigimos respeito.

   O trabalho e a luta dessas mulheres do Pina, de Mestra Joana, de Tenily Guian, de Mãe Carminha, Mãe Quixaba, Mãe Elda… do Ylê Axé Oxum Deym, do Encanto do Pina, do Baque Mulher… isso precisa ser conhecido. Elas precisam ser ouvidas. Merecem ser respeitadas. E eu tenho a convicção de que todos podem se beneficiar desse espaço, dessa escuta.

   Nesse dia 8 de março e cada dia mais, eu desejo que as vozes dessas e de outras mulheres silenciadas por tanto tempo ecoem e sejam ouvidas e reafirmo minha convicção da importância de grupos de cultura, discussão, apoio e acolhimento de mulheres nesse processo. Procurem essas mulheres. Conversem com elas, ouçam o que elas têm a dizer. Prestigiem-nas quando vierem às suas cidades. Façam suas oficinas. Elas têm muito a ensinar.

   Vida longa ao Baque Mulher, à Mestra Joana Cavalcante, à Tenily Guian e a todas as mulheres que lutam não apenas hoje, mas todos os dias, por um mundo que seja justo independente de gênero. É pela vida das mulheres!