MESTRA IYÀKEKERÊ JOANA CAVALCANTE

   Mestra Joana, mulher negra, mãe pequena do Ilé Axé Oxun Deym e militante pela comunidade do Bode no bairro do Pina em Recife, carrega consigo o legado de uma das nações mais conhecidas de maracatu de baque virado, a Nação de Maracatu Encanto do Pina, sendo ela mesma a mestra que rege o baque e que se responsabiliza pela manutenção dessa tradição afro pernambucana. 

Mestra Joana e Encanto do Pina em ensaio na Comunidade do Bode - Recife PE

Mestra Joana e Encanto do Pina em ensaio na Comunidade do Bode – Recife PE 2016

A Nação de Maracatu Encanto do Pina vem acolhendo há 36 anos crianças e jovens da comunidade do Bode no intuito de proporcionar outras vivências e caminhos que não o do crime, da prostituição, do abandono, da exploração, do racismo e machismo, mazelas tão enraizadas na sociedade em que estão inseridos e voltados principalmente contra eles mesmos, a comunidade negra e periférica de Recife. Nesse sentido, Mestra Joana sob os cuidados de Vó Quixaba e Yalorixá Mãe Helene, as grandes matriarcas e Ialorixás da Nação, proporciona junto à comunidade valores como a promoção social, o exercício de direitos iguais, o combate ao racismo, a plena proteção de crianças e jovens, a integração comunitária e a formação cultural. Valores que de fato vem fazendo a diferença para o futuro dessa juventude.

    Além de manterem a tradição do maracatu de baque virado que há séculos sobrevive à negligência dos governos e à consequente falta de políticas públicas que a promovam, Mestra Joana e Vó Quixaba mantém também a tradição religiosa de matriz africana, enfrentando perseguições e preconceitos propagados por fundamentalistas e corroborados pela mídia corporativa que silencia os casos de violência declarada à comunidade negra e sua manifestação religiosa.

Mães do Pina Agradecendo a Jurema no Yle Axé Oxum Deym

Mães do Pina Agradecendo a Jurema no Yle Axé Oxum Deym 2015

   Sendo a única mestra de maracatu de baque virado que já houve até o momento, também enfrentou e ainda enfrenta diversas formas de resistência à sua posição hierárquica, interpretadas por ela e outras batuqueiras como posicionamentos de cunho misógino e machista. Muitos foram os que não se referiram a ela como mestra, mas apenas como Joana, enquanto homens na mesma posição eram reconhecidos como mestres.

Mestra Joana e Baque Mulher cino Carnaval de Surubim 2016

Mestra Joana e Baque Mulher no Carnaval de Surubim 2016

 

 

   Anos e anos de luta para dar continuidade aos trabalhos sociais da Nação de Maracatu Encanto do Pina, Mestra Joana foi se tornando inspiração para outras mulheres que buscavam se empoderar para superar tais amarrar em suas comunidades, em seus mais diversos contextos. Sendo inspiração, Mestra Joana foi se sensibilizando à necessidade de trazer à tona discussões acerca do papel da mulher no maracatu de baque virado e de como o mesmo pode empoderar mulheres não somente batuqueiras, mas também moradoras da comunidade do Bode e ainda outros bairros mais pobres e periféricos, que muitas vezes não se identificam com as expressões culturais em cena justamente por não terem o protagonismo feminino.

 

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