Mestra Joana, mulher negra, mãe pequena do Ilé Axé Oxun Deym e militante pela comunidade do Bode no bairro do Pina em Recife, carrega consigo o legado de uma das nações mais conhecidas de maracatu de baque virado, a Nação de Maracatu Encanto do Pina, sendo ela mesma a mestra que rege o baque e que se responsabiliza pela manutenção dessa tradição afro pernambucana. A Nação de Maracatu Encanto do Pina vem acolhendo há 36 anos crianças e jovens da comunidade do Bode no intuito de proporcionar outras vivências e caminhos que não o do crime, da prostituição, do abandono, da exploração, do racismo e machismo, mazelas tão enraizadas na sociedade em que estão inseridos e voltados principalmente contra eles mesmos, a comunidade negra e periférica de Recife.

Nesse sentido, Mestra Joana sob os cuidados de Vó Quixaba e Yalorixá Mãe Helene, as grandes matriarcas e Ialorixás da Nação, proporciona junto à comunidade valores como a promoção social, o exercício de direitos iguais, o combate ao racismo, a plena proteção de crianças e jovens, a integração comunitária e a formação cultural. Valores que de fato vem fazendo a diferença para o futuro dessa juventude. Além de manterem a tradição do maracatu de baque virado que há séculos sobrevive à negligência dos governos e à consequente falta de políticas públicas que a promovam, Mestra Joana e Vó Quixaba mantém também a tradição religiosa de matriz africana, enfrentando perseguições e preconceitos propagados por fundamentalistas e corroborados pela mídia corporativa que silencia os casos de violência declarada à comunidade negra e sua manifestação religiosa. Sendo a única mestra de maracatu de baque virado que já houve até o momento, também enfrentou e ainda enfrenta diversas formas de resistência à sua posição hierárquica, interpretadas por ela e outras batuqueiras como posicionamentos de cunho misógino e machista. Muitos foram os que não se referiram a ela como mestra, mas apenas como Joana, enquanto homens na mesma posição eram reconhecidos como mestres. Anos e anos de luta para dar continuidade aos trabalhos sociais da Nação de Maracatu Encanto do Pina, Mestra Joana foi se tornando inspiração para outras mulheres que buscavam se empoderar para superar tais amarrar em suas comunidades, em seus mais diversos contextos. Sendo inspiração, Mestra Joana foi se sensibilizando à necessidade de trazer à tona discussões acerca do papel da mulher no maracatu de baque virado e de como o mesmo pode empoderar mulheres não somente batuqueiras, mas também moradoras da comunidade do Bode e ainda outros bairros mais pobres e periféricos, que muitas vezes não se identificam com as expressões culturais em cena justamente por não terem o protagonismo feminino.

E foi assim que ela, em 2008, idealizou e concretizou o grupo Baque Mulher de Recife, um grupo de maracatu de baque virado composto somente por mulheres que cantam, dançam e tocam loas (canções) próprias compostas enquanto instrumento de expressão feminina, luta e resistência pelos direitos das mulheres. Tendo suas raízes fundamentadas nas duas nações de maracatu de baque virado da comunidade do Bode, a Nação de Maracatu Encanto do Pina e a Nação de Maracatu Porto Rico Mestra Joana manifesta com o grupo a importância de se refletir sobre a violência contra a mulher, seja psicológica, verbal ou corporal, sobre o racismo contra a mulher negra, sobre a valorização das matriarcas de comunidades tradicionais, sobre o poder feminino e o legado das mulheres mais velhas que lutaram por direitos básicos que hoje nos beneficiamos e , ainda, sobre o papel da mulher nas manifestações culturais, como o próprio maracatu de baque virado. Desde então, mulheres componentes dessas duas nações e de grupos de outros estados filiados a elas tem se identificado com a proposta e somado forças ao movimento que hoje conta com mais de 200 batuqueiras, sendo que a maioria se concentra em Recife mesmo, mas outras tantas se encontram difundidas por todo o Brasil. Por isso, acredita-se que cada vez mais o grupo Baque Mulher de Recife tem ampliado sua rede de intervenção, se tornando um movimento social de alcance nacional e que tem suas ações realizadas em cidades do norte ao sul do país.

Para participar do movimento é fundamental entender a proposta e quais os fundamentos que compõem o Baque Mulher. Segundo Mestra Joana, as integrantes do Baque Mulher tocam as Nações do Pina: Porto Rico e Encanto do Pina. Outro aspecto importante para a Mestra e que não abre mão é o uso da saia, maquiagem e cabelo solto, como forma de resistência e legitimidade.

O Baque Mulher traz em sua essência a força dos orixás femininos, mulheres guerreiras. A cor rosa de Yansã e o laranja de Obá estão representadas no figurino que cobrem a pele e nas letras das canções que falam da força e do poder de estar e lutar juntas.

Uma de suas ações de maior relevância tem sido a participação do bloco político carnavalesco ‘’Nem Com Uma Flor’’, criado há mais de dez anos pela Prefeitura de Recife com o objetivo de levantar a bandeira da prevenção e combate à violência contra a mulher. Em fevereiro de 2016 nascia mais uma grande ação: Mestra Joana e o Baque de Mulher articularam o coletivo Feministas do Baque Virado, que tem por objetivo alinhar posicionamentos e fomentar a partir do maracatu de baque virado projetos voltados para o empoderamento feminino. Assim, membras do Baque Mulher espalhadas de norte ao sul se veem motivadas a realizarem ações em suas próprias comunidades, em suas escolas, em suas cidades, sempre apoiadas nos fundamentos do Baque Mulher e sob orientações de Mestra Joana.